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Cuestiones de América

N° 15, Agosto-Noviembre de 2003

 

O Governo Lula, a América Latina e o Neoliberalismo: Desafios

Ivonaldo Leite y Carlos Machado *
 

A recente campanha eleitoral brasileira foi exemplar do tipo de relação que a globalização neoliberal impõe hoje aos quatros cantos do planeta, promovendo a supremacia ilimitada do mercado, este ente abstracto do qual tanto se fala e ninguém diz o que vem a ser, escondendo-se assim que, desreguladamente, no fundo, ele supõe um conjunto de interesses especulativos que busca, custe o que custar, lucros e mais lucros. Pois bem, o mercado não aceitava Lula, e mesmo este levantando a bandeira branca, ele não se acalmava.

Dessa forma, o mercado tentou condicionar a escolha dos brasileiros, procurando fazer com que eles sufragassem a opção que lhe era conveniente. E foi assim que, entre outras coisas: 1) O real (a moeda do País) enfrentou sucessivos ataques, sendo cotado cambialmente num patamar, em relação ao dólar, sem fundamento, como resultado de puro terrorismo político e económico; 2) o especulador George Soros disse que, na era global, os povos nacionais perdem autonomia na escolha dos seus governos; e (3) da América do Norte, difundiu-se a propagação, alimentada por meia dúzia de académicos e jornalistas ventríloquos, segundo a qual, com a vitoria do Partido dos Trabalhadores (PT), formar-se-ia na região um “eixo do mal”, encabeçado por Lula/Chavez/Fidel, para dar guarida ao terrorismo. Os brasileiros, todavia, não se intimidaram:
Foram às urnas e, independentemente, elegeram um candidato de fora das estruturas do poder, mesmo que Lula tenha feito concessões – mas estas não parecem ter significado a “entrega dos dedos”, ou mesmo de “todos os anéis”.

Quais as perspectivas da governação? O que vai acontecer? A América do Sul reviverá, cerca de trinta anos depois, uma experiência semelhante à do Chile sob Salvador Allende? Só o futuro trará respostas para indagações como estas, mas, sem dúvida, as respostas vão depender da correlação de forças interna no Partido e do papel dos movimentos sociais. Seja como for, estará posta a questão entre a continuidade e/ou o estabelecimento de uma nova hegemonia na sociedade brasileira, com reflexos para todos os países da América do Sul e da América Central. O que, de resto, significa dizer que há que fazer opção política. E se assim o é, quanto a nós, há que se olhar para Cuba e Venezuela, a propósito do que foi chamado de “eixo do mal”, como referência no sentido de, politicamente, afirmar soberania (o que evidentemente não os imuniza de crítica), num tempo em que a região é sacudida pelos ventos do neoliberalismo, cujas consequências mais nefastas estão a ser vividas pela Argentina.

Assim, a convergência em torno do eixo, longe de o tornar do “mal”, como se tem propagado, pode consubstanciar uma fonte de inspiração e de impulso para que o Governo Lula implemente um projecto que, do ponto de vista geo- político, tenha como perspectiva central a integração latino-americana e a sua soberania diante de ingerências externas. Com as reservas necessárias, há que se olhar portanto para aqueles países tendo em atenção, por exemplo, dois aspectos.

O primeiro, diz respeito ao sentido das políticas desenvolvidas por Cuba e pela Venezuela, as quais tanto se contrapõem directamente à hegemonia norte-americana quanto desenvolvem acções administrativas em via contrária à do neoliberalismo. E se deve dizer que foi em nome de outro tipo de sociedade, socialista, que se levou adiante a experiência cubana; e que o governo venezuelano recupera antigos projectos de integração da Nuestra América. O segundo aspecto a ter em conta, é que as políticas e acções por parte de Cuba, bem como o seu não-desmoronamento, somente têm sido possíveis devido a organização e a participação popular em diferentes momentos da sua história e em diferentes âmbitos administrativos (por exemplo, em 1960, na fracassada tentativa de invasão do País, na Baía dos Porcos; nas organizações de bairro e nos recentes Conselhos Populares). No referente à Venezuela, têm sido a organização, o apoio e as mobilizações das massas deserdadas, os factores responsáveis pela manutenção de Hugo Chavez na Presidência da República, como ficou demonstrada na frustrada tentativa de Golpe, apoiada pelos Estados Unidos, levada a cabo pela direita, e nas seguidas manifestações com o mesmo objectivo – o que, diga-se de passagem, paradoxalmente, não têm recebido uma só palavra de rejeição dos paladinos da legalidade institucional e do Estado de Direito, que não perdem uma oportunidade para esbravejar contra o terrorismo... em nome da “democracia”.

Cabe realçar, portanto, que o Governo Lula, para fundar uma nova hegemonia política no País, e a difundir regionalmente, precisa ter em conta questões como: 1) A evolução histórico-política da América Latina e a sua configuração actual; 2) a indissociabilidade orgânica com a vitalidade militante e anti-burocrática do Partido dos Trabalhadores, um tanto em refluxo nos anos 1990; 3) inspirar-se em/levar adiante experiências de administrações estaduais/municipais do Partido que radicalizam a democracia.

América Latina: velhos objectivos, novas estratégias

Desde que a acção colonial europeia, no processo de realização da acumulação primitiva de capitais, dizimou civilizações como a Inca, Asteca e Maia, a América Latina, salvo raras excepções, tem desconhecido o que vem a ser autodeterminação política em sua plenitude. Após as lutas de Independência da “América espanhola”, os sonhos de Símon Bolivar em torno da sua unidade foram frustrados, como consequência da ingerência da “diplomacia” norte-americana e inglesa no sentido de evitar que fosse criado um só país.

E assim surgiram, nos diversos países da Nuestra América, “governos plantados”, promotores e gestores da sua dependência económica, política e cultural. Nomeadamente após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos deixaram de dividir a influência na região com a Inglaterra (dada as consequências do conflito), com os norte-americanos oscilando a modalidade de exercício de tal influência entre o apoio a governos formalmente eleitos e o estímulo/assentimento a Golpes de Estado/Ditaduras Militares. Seguia-se dessa maneira a implementação de uma doutrina estadunidense há muito proclamada:
“A América para os americanos” (do Norte, acrescente-se). O resultado mais imediato deste sofisma é que se tende - mesmo entre muitas mentes “pretensamente esclarecidas” - a referir os Estados Unidos como a América, esquecendo-se que as suas fronteiras limitam-se ao México.

As décadas 1980/1990 na América Latina, entretanto, são décadas de redefinições políticas/reconfigurações conjunturais. Após anos de Ditaduras Militares e de caudilhismo populista, os “conselheiros internacionais” passaram a defender regimes comprometidos com a total liberdade do mercado, isto é, com o neoliberalismo. Pelo que então antigos caudilhos populistas- estatistas, aliados de Washington no passado, tornaram-se companhias desagradáveis. Já cumpriram o seu papel. Com as remodelações introduzidas no Sistema Mundial Capitalista pela globalização, interessa a América do Norte que, na América Latina, existam governos comprometidos com a total liberdade de mercado, para assim levar adiante a implementação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) como forma de contraposição/fortalecimento em relação à União Europeia, proporcionando aos EUA uma ampla fonte de matérias-primas e de consumo para os seus produtos. Nesta conjuntura, os recuerdos nacionalistas de antigos aliados populistas-estatistas são bastante incómodos para a Casa Branca. Tornaram-se companhias desprezíveis. Não mais são úteis a Washington na continuidade da implementação da doutrina estadunidense: “A América para os americanos” (do Norte). Em termos de política externa, este é o principal quadro que o Brasil de Lula, principal País da Outra América, terá diante de si.

E neste quadro, é uma opção política imprescindível inverter os sinais no que se refere à integração continental, donde então é um começo pôr-se a questão da remodelação económica, política e cultural do MERCOSUL - considerando a catástrofe que foram as políticas neoliberais -, realizando ao mesmo tempo uma articulação ampliada com outros países que não o integram e, fundamentalmente, tendo em conta indicações de antigos e novos movimentos sociais de resistência da região. Trata-se de levar adiante um projecto que, perante as novas estratégias do Norte para consumar o seu velho objectivo (a total subordinação da América Latina), também apresente novas estratégias para recuperar os objectivos de Símon Bolivar e de José Marti em torno da unidade e da solidariedade entre os povos latino- americanos.

Vitalidade militante e vitória política

Diferente dos partidos da esquerda tradicional, o PT nasceu e evoluiu como uma força política que, superando a dicotomia partido de quadros & partido de massas, se firmou como um partido-movimento com ampla base social e crítico das experiências “socialistas” do século XX, congregando uma variedade de tendências que tinham na ideia comum de libertação social da exploração capitalista e de construção de uma sociedade justa, fraterna e igualitária, o princípio que tornava possível a sua aglutinação conjunta num mesmo partido. Tais tendências iam de organizações clandestinas - como o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e o PRC (Partido Revolucionário Comunista) -, passando pela diversidade de grupos trotskistas, leninistas, de segmentos de intelectuais, de pessoas que se reivindicam apenas como de esquerda (caso do próprio Lula), chegando até aos católicos da chamada Teologia da Libertação – esta um misto de cristianismo e marxismo. Uns e outros inclusivamente com passagem pela luta armada.

Tal composição fez do PT um partido com intensa vitalidade militante e antiburocrático, mantendo uma permanente ligação com os movimentos sociais e procurando pôr em prática em seu quotidiano valores de um tipo de sociedade diferente, aí incluindo-se, por exemplo, a igualdade entre homens e mulheres e a rejeição de todas as formas de preconceito. Como consequência, a actuação do Partido nutriu-se de uma energia que procurava fazer da utopia realidade, e assim impulsionava a sua intervenção institucional de um modo que o contacto com as instituições não significava a abdicação do seu potencial utópico. Durante a década de 1990, contudo, verifica-se um refluxo nesta forma de ser do PT, resultado das “relações internas” e das opções políticas feitas, embora não só.

A questão que se põe agora, com a vitória eleitoral, é manter, redimensionar e intensificar a aludida postura como forma de dar expressão prática ao histórico projecto que alimentou as acções de corações e mentes ao longo da vida partidária, e dessa forma procurar transformar a vitória eleitoral em vitória política.

Uma outra democracia, radicalizada

Buscar a transformação da vitória eleitoral em vitória política, implica em definir uma agenda que tenha como um dos seus pontos centrais a questão da democracia, como forma de estabelecer bases para uma futura mudança social mais ampla, subvertendo a estrutura política da sociedade brasileira. Concretamente, a referida busca requer que a exclusividade da democracia representativa seja superada pela introdução de formas de democracia directa. Trata-se, portanto, de uma outra democracia - que se diferencia da que emergiu na modernidade sob a orientação ideológica do parlamentarismo liberal-burguês -, pois é uma democracia radicalizada.

Para a adopção de tal perspectiva, o PT não parte do nada, pois administrações locais ousadas do Partido já tem posto em prática mecanismos de democracia directa. A este respeito, cabe mencionar, por exemplo, o Orçamento Participativo da cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul. Ou seja, diferente do que classicamente tem acontecido com a esquerda – que vai ao poder para o modificar, mas é modificada por ele –, estas administrações ousadas do PT, dentre as quais poder-se-ia mencionar ainda a de Belém (capital do estado do Para), tem mantido um pé no campo institucional e o outro no campo da organização popular/dos movimentos sociais, com este impulsionando a acção daquele.

Está em causa, assim, que o Governo Lula tenha presente esta lógica, levando adiante então um projecto que, não limitando suas acções ao “espectáculo das instituições”, reinvente a democracia de forma radicalizada.

Esperança no que virá, “sem perder a ternura jamais”

Grandes são os desafios perante os quais o Brasil de Lula estará colocado. Do ponto de vista interno, milhões de brasileiros e brasileiras esperam que as suas expectativas não sejam frustradas. Do ponto de vista regional, a Nuestra América olha para o Brasil lembrando dos ideias que inspiraram a libertação do jugo colonial. E internacionalmente, as atenções da Esquerda se voltam para o “laboratório político” brasileiro, na expectativa de saber o que virá e os desdobramentos para o resto da América Latina. Brasil, este pedaço de terra de 8 511000 km e de 170 milhões de habitantes, miscigenados num “caldeirão tropical” de índios, europeus, africanos e asiáticos (a pura mistura que produz o brasileiro), ocidental e não-ocidental, a 10ª economia mundial e paradoxalmente uma Belíndia (a um só tempo, uma Bélgica e uma Índia), como diz o economista Edmar Bacha(1), começa o milénio com a oportunidade de iniciar uma nova escrita da sua história. Com esperança no que virá e, de um modo muito brasileiro e mesclado com a máxima do Che, “sem perder a ternura jamais”.

Pode dizer-se então que o povo brasileiro inicia um tempo em que, coincidindo com as celebrações em torno do centenário de Carlos Drummond - o poeta gauche -, tem uma razão acrescida para o recitar: (...) Estou preso à vida e olho os meus companheiros/Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças/Entre eles, considero a grande realidade/O presente é tão grande, não nos afastemos/(...) Vamos de mãos dadas.

Notas

1- Ver Edmar Bacha, “O Economista e o Rei da Belíndia: Uma Fábula para Tecnocratas”, in Jornal Opinião, s/e, São Paulo, 1974.

* Rebelión, 16 de diciembre del 2002. Ivonaldo Leite: Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)/Brasil e Doutorando na Universidade do Porto/Portugal. Agradece se comentários forem feitos em relação ao artigo, devendo os mesmos serem enviados para ivonaldo.leite@netc.pt. Carlos Machado: Doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)/Brasil e Professor da FEEVALE- Centro Universitário/Novo Hamburgo - RGS. E-mail: karlmac@ig.com.br

 

 

 

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