Nova
geografia política do mundo
Emir
Sader *
Diz-se que quando os homens toleram que as mulheres invadam uma profissão,
seria porque esta perdeu importância. O mesmo acontece com os ramos da
economia: quando o centro transfere um setor para a periferia do capitalismo, é
porque tecnologicamente deixou de ser de ponta.
Quando os ricos aceitam pobres nas suas reuniões, é porque não vão decidir nada
de importante nelas. Foi assim na reunião do G-8 em Evian. À falta de uma pauta
importante a discutir e decidir, depois que a nova doutrina estratégica
norte-americana exclui qualquer forma de multilateralismo no mundo, os
governantes dos países centrais do capitalismo resolveram convidar a
governantes de países da periferia para sua festa esvaziada. O presidente dos
EUA esteve 24 horas, só para dizer que não foi, um tempo menor do que o que
levou viajando no seu avião presidencial até o Oriente Médio e retornando aos
EUA. Não é de se estranhar portanto que nem sequer referência às propostas de
Lula seja feita no documento final, que ainda guarda certo ar protocolar e não
reserva lugar para “bravatas” como a taxação da indústria bélica – de que os grandes patrões estavam todos
presentes – para
políticas sociais.
Mas, apesar disso tudo, a geografia política do mundo vai mudando. À
unipolaridade norte-americano, governos da semiperiferia do sistema – na ausência de respostas consistentes por
parte de governos do centro –
se articulam para organizar e dar expressão política ao Sul do mundo, excluído
dos três megamercados mundiais. A reunião dos primeiros mandatários do Brasil,
da África do Sul e da Índia é a notícia mais importante na nova configuração
política mundial desde o fim da multipolaridade. Porque ela pode representar a
expressão dos 85% da população mundial, situada na periferia do sistema, que se
divide pessimamente 15% da renda mundial e assim começar a reverter um
desequilíbrio de poder no mundo a favor da grande maioria da humanidade.
Da mesma forma, a reunião do Mercosul em Assunção, aponta na mesma direção.
Resolvida positivamente a eleição na Argentina, estão dadas as condições para a
retomada, fortalecimento e expansão do Mercosul, conforme as propostas do
governo brasileiro, colocando-o efetivamente no lugar privilegiado em relação à
Alca. A reunião da OMC em Cancun, em setembro deste ano, por sua vez, está
esvaziada, pelo clima geral mundial – bélico e recessivo - , revelando como os
tempos de crise não são propícios para avançar no livre comércio. Resta aos
países do Sul do mundo organizar seus espaços protegidos e integrados para se
enfrentar a uma recessão prolongada e profunda do capitalismo mundial e à “guerra
infinita” do governo Bush.
O mundo já é outro, ao final da primeira década de unilateralismo. A
superioridade militar dos EUA não é suficiente para impor sua hegemonia sobre
um sistema mundial diversificado e ferido por políticas liberais e de guerra
que abrem um espaço para lideranças alternativas, na construção de um mundo
multipolar.
* ALAI, 4 de junio de
2003.
Regresar a la Página
Vigente de América Semanal...