Cuestiones
de América
Proposta e estratégia
Produção Simbólica e Identidade dos Povos / Resistencias culturais
à dominação imperial
Michael Lowy, Especes Marx, França *
O fetichismo da mercadoria é um aspecto central
da cultural imperial : ele é uma espécie de pseudo-religiâo (Cf. Walter
Benjamin, O capitalismo como religiâo), que transforma a mercadoria - assim
como o mercado e o dinheiro – em fetiches, em idolos que exigem sacrificios
humanos. Os principios deste culto idolatra, que exerce uma verdadeira ditadura
cultural em escala planetaria - e que tem na cidade de Davos sua capital
simbolica - visam à reduçâo de cada relaçâo humana, de cada sentimento humano,
de cada produçâo simbolica - cultural, social, religiosa, erotica ou artistica
– em uma mercadoria, a ser comprada ou vendida segundo seu valor mercantil.
Já no século XIX,
um crítico da economia política havia previsto, com lucidez profética, o mundo
de hoje: «Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os seres humanos haviam
considerado inalienável tornou-se objeto de troca, de tráfico e pode
alienar-se. É o tempo em que as coisas mesmas, que até então eram comunicadas,
mas nunca trocadas; dadas, mas nunca vendidas; conquistadas, mas nunca
compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc – em que tudo, enfim,
passou para o comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal
ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa,
moral ou física, tendo-se tornado valor venal, é levada ao mercado para ser
apreciada por seu valor adequado». (Marx, Miséria da Filosofia).
O neoliberalismo é
o feroz, o brutal e impiedoso denvolvimento desta logica venal até suas ultimas
consequencias.
A mercantilizaçâo ,
na etapa do capitalismo neoliberal, nâo significa apenas que a cultura se torna
uma mercadoria como as outras. Ela esvazia os produtos culturais de seu
conteudo humano, de suas qualidades artisticas ou sociais, que sâo dissolvidas
no puro valor de troca, isto é, em quantidades monetarias. A logica da
mercantilizaçâo é perfeitamente indiferente ao valor cultural intrinseco - ou a
ausência de valor – dos produtos simbolicos : seu unico e exclusivo interêsse -
que nâo conhece trégua nem pausa – é a rentabilidade de suas mercadorias, a
conquista de maiores partes de mercado, a acumulaçâo do capital. Nâo é uma
questâo de bôa ou ma vontade, de maior ou menor falta de escrupulos : se trata
simplesmente da logica impiedosa de um sistema, cuja expressâo cultural mais
caracteristica, que invade todos os espaços da vida publica e privada, que ocupa
as telas de cinema e de televisâo, que se espalha pelos muros e pelas estradas,
é a publicidade comercial.
O
pseudo-universalismo ocidental-imperial pretende impor à todos os povos do
mundo - e em particular aos da periferia do sistema - sob o manto da
“civilizaçâo”, a dominaçâo da cultura e do modo de vida capitalista neoliberal
: propriedade privada, economia de mercado, fetichismo da mercadoria,
produtivismo, utilitarismo, individualismo possessivo - uma tradiçâo que vem
desde Hobbes e Locke – e racionalidade instrumental (objeto da critica de
Adorno e Horkheimer na Dialética do Iluminismo). O império norte-americano é
particularmente ativo na promoçâo, em escala global, de uma so lingua, uma so
cultura, uma so forma de viver, de se divertir e de pensar.
Contra a dominaçâo
imperial, a resistencia cultural toma a forma, em um primeiro momento, de
defesa das culturas locais, nacionais ou regionais, tratanto de protege-las do
rolo compressor da globalizaçâo neoliberal. A diversidade cultural é uma das riquezas
da humanidade, e ela esta sendo ameaçada - da mesma forma que a diversidade
biologica das espécies - pela dinâmica destrutora e homogeneizadora do sistema.
Este combate par
salvar a pluralidade cultural humana - que inclui nâo so culturas locais, mas
também culturas transnacionais, como por exemplo a cultura negra do Atlântico,
que engloba a produçâo simbolica das populaçôes de origem africana das
Americas, do Caribe e da Inglaterra (veja-se o livre de Paul Gillroy, Black
Atlantic) - é indispensavel, mas insuficiente. Deve estar associado à luta pela
constituiçâo de uma nova universalidade humana, de uma cultura universal
emancipadora. Senâo, corremos o risco que a defesa das identidades culturais
tome a forma de nacionalismos estreitos e intolerantes, ou de manifestaçôes
religiosas agressivas e fundamentalistas, ou, pior ainda, de racismos, sexismos
e xenofobias. E’ o que vemos na Europa, com o inquietante e espetacular
progresso de fôrças politicas neofascistas ou semi-fascistas, que fazem do odio
ao “extrangeiro” – arabe, africano, judeu, cigano, ou simplesmente “nâo branco”
- seu fundo de comercio. Ou ainda em varios paises do Sul, onde os pobres se
trucidam entre si, em nome da ethnia, da religiâo ou da nacionalidade. Sem
falar dos Estados Unidos, onde, além do tradicional racismo anti-negro
assistimos atualmente ao surgimento de reaçôes xenofobicas contra a populaçâo
americana de origem arabe.
Outra falsa
alternativa cultural ao pseudo-universalismo da globalizaçâo neoliberal é a
“politica identitaria” promovida pelos postmodernos, que decretam o fim das
Grandes Narrativas da Emancipaçâo - desde o Iluminismo até o Marxismo - em nome
da alegre multiplicaçâo dos “jogos linguisticos “ mutualmente irreconciliaveis
(cf. Lyotard, A condiçâo postmoderna). Os ideologos postmodernos celebram o
particularismo, a fragmentaçâo, a dissociaçâo e a dispersâo dos varios
movimentos “identitarios” - culturais, etnicos, de gênero ou de orientaçâo
sexual – e rejeitam qualquer proposta de unificaçâo, articulaçâo ou universalizaçâo
das lutas como uma tentativa anacrônica de reviver as “Grandes Narrativas” do
passado.
A primeira tarefa
de uma resistencia cultural eficaz é précisamente tratar de estabelecer
vinculos e conexôes entre as varias reivindicaçôes democraticas, as diversas
lutas sociais, assim como entre estas e o movimento operario, buscando um
terrêno comum, uma convergência que respeite a autonomia de cada um, mas os
associe no combate comun contra a dominaçâo imperial, contra o racismo e o
poder patriarcal, contra a logica deshumana do neoliberalismo.
O desafio é entâo
de construir uma nova cultura universal, democratica e plural, uma cultura da
solidariedade fundada em alguns principios gerais : 1) o reconhecimento e o
respeitos das diferenças : o objetivo é, segundo a célebre formula dos
zapatistas, “um mundo no qual cabem muitos mundos”. 2) a emancipaçâo dos sêres
humanos de todas as formas de opressâo, exploraçâo, alienaçâo e degradaçâo. 3)
a des-mercantilizaçâo da cultura, sua autonomizaçâo em relaçâo às leis do
mercado, seu livre desenvolvimento em funçâo de seus proprios critérios.
Necessitamos de uma
cultura critica e universalista deste tipo, uma cultura da esperança voltada
para a perspectiva de um futuro emancipado, para conseguir superar os
etnocentrismos e as intolerâncias, e para opor um alternativa coerente ao
desastre cultural do neoliberalismo.
Esta nova cultura
planetaria, uma cultura da solidariedade e da esperança, libertaria e
emancipadora, socialista e democratica, nâo é apenas um sonho acôrdado, uma
utopia concreta, uma imagem-de-desejo (Ernst Bloch, O principio esperança). Ela
começa, pouco à pouco, à tomar forma no seio deste imenso movimento mundial,
universal, internacional e internacionalista, solidario e combativo, que tem no
Forum Social Mundial um dos seus epicentros. E’ no bojo deste amplo Movimento
Pela Justiça Global, deste movimento altermundialista que atravessa os paises e
os continentes, desta vasta mobilizaçâo de luta e de pensamento, que se
manifestou nas ruas de Seattle, Nice, Praga, Estocolmo, Washington, Barcelona,
Gênova, Florença e Porto Alegre, que se estâo dando os primeiros passos, ainda
incipientes mas promissores, para a invençâo de uma nova cultura da humanidade,
mais além do pesadêlo capitalista, imperial e neoliberal.
* III Foro Social
Mundial; Mesa: Medios, cultura y contrahegemonía.
Cuestiones
de América Nº 13, Febrero - Marzo de 2003
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