Cuestiones
de América
Participação Popular e os Não-Organizados
Marina Silva *
Minha participação no Seminário, ainda que limitada
a uma manifestação escrita, tem por objetivo tratar do tema da
"participação popular e os não-organizados", dentro do espírito geral
do encontro, de provocar reflexão crítica a respeito das práticas
participativas atuais em nosso país, principalmente em governos
democrático-populares. .
Levantarei, assim,
algumas questões sobre o tema, na tentativa de colaborar para a análise da
"limitação e o distanciamento entre as instituições, sociedade civil
organizada e a população que não está inserida em nenhuma organização" e
"das causas da não-participação de grande parte da população", como
significativamente propõe o Seminário.
Para falar da
participação dos não-organizados é preciso falar antes de seu espelho - a
participação dos organizados. De suas relações com a sociedade em geral e com o
Estado. Do próprio Estado. E, antes de tudo, do espaço público onde essas
relações se dão e da maneira como cada um de nós, cidadãos, entende a esfera
pública de sua vida.
Há inúmeros e
complexos motivos, arraigados na nossa história e na nossa cultura, para as
deficiências de participação popular que sentimos hoje nas decisões de
interesse público. Há também as poderosas conseqüências das novas dinâmicas
comunicativas que se impuseram desde o século passado como marca da era
contemporânea. Se de um lado elas quebraram positivamente inúmeras barreiras de
informação e de acesso a entretenimento, por outro fomentaram hábitos culturais
isolacionistas, que estimulam substituir a efetiva participação nos fatos pela
passiva contemplação televisiva. Favorecem também a confusão mental entre
espetáculo e vida social, entre espaço público e a tela que nos dá a impressão
de sermos parte de algo comum relevante e inexorável.
Falamos
freqüentemente em cidadania como o território prioritário da vida social a ser
buscado, como a porta de acesso a direitos humanos básicos. A cidadania
consciente seria a salvaguarda contra as armadilhas da alienação e o primeiro
passo para garantir a existência real da democracia e de qualidade digna de
vida para todos. Assim, seria também o primeiro passo para a compreensão do
valor da organização e da negociação aberta dos diversos interesses e idéias
que compõem a vida coletiva. É nessa esfera que se cultivam a solidariedade, a
tolerância, o respeito à diversidade, a noção dos limites da vontade
individual, a coesão e o conflito produtivo entre idéias e propostas.
Nesse ponto, é
preciso observar que, se falamos em déficit de cidadania, que obstáculos
observar na realidade brasileira para que cada indivíduo seja um cidadão pleno
no espaço público? Ou em que medida temos uma visão limitada de cidadania e
organização - talvez até burocratizada - que nos impede de identificar formas
não convencionais de organização e exercício de cidadania? Finalmente, em que
podemos avançar - teórica, prática e metodologicamente - para compreender e
incrementar as inúmeras formas de organização que podem levar a uma sociedade
mais justa, orientada por valores humanos e não por equações economicistas?
Para tentar
contribuir para a resposta a essas questões, destacarei alguns daqueles
obstáculos citados. A atuação do Estado é um deles, sob vários aspectos. Muitos
anunciaram a morte do Estado nacional diante das diluições de fronteira e da
emergência de novas dinâmicas de poder no mundo globalizado. Há aí um equívoco,
pois temos a todo momento demonstrações de que essas novas dinâmicas conservam
estruturalmente o modelo de dominação tradicional, entre nações e entre
segmentos sociais dentro de um mesmo país. Além disso, a fragilidade do Estado
no mundo pobre e subjugado, freqüentemente não é uma fatalidade, mas função de
escolhas e alinhamentos específicos feitos por governos e elites. Nada há de
abstrato ou teórico nisso. Podemos identificar os rastros no Brasil: tudo para
o ajuste econômico, os restos para o equilíbrio social.
A verdade é que o
Estado continua sendo o mais forte indutor de situações e a mais poderosa alavanca
de interesses. Tudo é uma questão de escolhas e prioridades. Não existe o
impossível na esfera das decisões públicas. Existem vontades, que por razões
objetivas pendem para este ou aquele lado. Assim, o Estado pode e deveria - num
cenário desejável - induzir a participação ampla dos cidadãos no processo de
tomada de decisões. Há milhares de maneiras de produzir este efeito, ao longo
do tempo, a começar das várias instâncias da educação formal e informal. O que
vemos com mais freqüência, porém, é uma das maiores perversidades políticas que
se pode cometer contra uma sociedade, que é o uso dos instrumentos do poder
público para montar o teatro da participação, com o objetivo de obter
legitimidade aparente, quando o que se faz de fato é concentrar poder, é dar
roupagem nova a práticas coronelistas e patrimonialistas, desprezando a
pedagogia necessária ao avanço social. O Estado brasileiro, longe de ser um
mediador dos interesses dos vários segmentos sociais, com base em regras
universais para o trato desses interesses, tem permanecido ao longo da História
como o instrumento das elites para concentrar riquezas e fabricar injustiça
social. Nesses termos, o tema da participação não poderá ser, de fato, mais do
que uma farsa.
Além do mais, essas
mesmas características levam a forte tendência a cooptar grupos que emergem
organizados da sociedade, aceitando dividir com eles os rituais do poder e
mesmo parcelas do processo de tomada de decisão. Para as elites, o produto de
tal pacto não dito e não escrito, é altamente favorável, pois não só fornece a
fachada democrática da participação como chancela decisões que passam a ter
também a assinatura da "sociedade", mesmo que às vezes representem
acertos de cúpulas - porque, até quando beneficiam a comunidade, deixam de ter
embutida aquela pedagogia a que me referi. E é daquela pedagogia que brotam
cidadãos conscientes e menos dispostos a delegar a outrem (quem quer que seja
esse outrem) a sua parte específica de direitos e responsabilidades coletivas.
Essa mesma pedagogia da efetiva e ampla participação pode ter outros efeitos
positivos: fomenta causas e valores entre jovens, cria nexos e laços de
solidariedade, ameniza a violência interpessoal e social; dá sentido à vida das
pessoas, que se vêem como parte de um todo no qual sua palavra, suas idéias,
sua criatividade contam, saindo assim da angústia e do medo que o
individualismo e o isolacionismo provocam.
Perceber essas
sutilezas do que chamamos de participação organizada é, assim, fundamental para
valorizar de fato a ampliação da participação. Mesmo o militante honesto e bem
intencionado deve estar alerta para as tentações do iluminismo, para a vontade
de resolver e fazer em círculos restritos, pensando apenas na eficiência do ato
e não nas suas repercussões mais profundas.
No Acre nós temos
tido lições difíceis e preciosas a este respeito. No ano passado, perdemos a
eleição para prefeito de Rio Branco e paramos para pensar no porquê. Creio que
a grande lição, nesse caso, é que em gestão pública não se pode fazer nada sem
uma sólida construção coletiva. Não podemos nos concentrar, quando à frente do
Estado, apenas nos resultados pretendidos, por mais relevantes que sejam. É
preciso haver coerência entre o resultado e a forma pela qual ele é buscado.
Num primeiro momento, pecamos porque imaginávamos que fazendo as coisas bem
feitas e honestamente, no governo estadual e em todas as posições públicas que
ocupamos, isso seria suficiente para ter o reconhecimento de nosso trabalho
pela sociedade. Mas as pessoas não são obrigadas a saber o que vai na cabeça de
uma liderança; elas não precisam e não devem confiar cegamente. Ao contrário,
precisam sentir-se participando de fato, até mesmo para se comprometer com o
resultado.
Quando assumimos o
governo do estado, com a eleição de Jorge Viana, nos assustamos com o grau de
desmonte do poder público e nos concentramos em sua recuperação. Mas as
mudanças na estrutura do governo tinham que ter sido construídas com as
pessoas, até para que todos compreendessem plenamente o que estava acontecendo.
Ou seja, não funciona o modelo de "fazer para". É preciso "fazer
com", mesmo que o "com" seja seu oponente. Esse é o caminho de
uma gestão pública inovadora, popular e democrática. Como disse o governador
Jorge Viana, "nós representamos um projeto que se manifesta no governo,
nos mandatos legislativos, em várias prefeituras e tem ligações fortes com o
desenvolvimento do terceiro setor no estado, nos últimos vinte anos. Tem horas
que a gente comete o erro de fazer um trabalho para as pessoas, quando tem que
fazer com as pessoas. O que queremos, nosso projeto político e social, isso
está bem desenhado, bem visível. O que precisamos é ampliar a participação,
incentivar envolvimento maior das pessoas, compartilhar com elas tudo. Isso é o
que sempre defendemos mas não estávamos conseguindo fazer".
Trata-se, portanto,
de um imenso desafio tanto para governantes quanto para militantes
comprometidos com a construção de uma sociedade justa. Para tratar do tema da ampliação
da participação dos não-organizados, é preciso que os organizados façam um
mergulho dentro de si mesmos e se questionem. Para usar uma expressão de
Cristovam Buarque, façam a revolução das próprias prioridades e mentes, para
que não caiam na armadilha bem-intencionada do fazer em si, da competência
apartada do difícil caminho - talvez mais tortuoso, longo e demorado - da
inclusão da cidadania alheia.
A situação em que
nos encontramos exige mudança de atitude de toda a sociedade. Acostumamo-nos a concentrar
no Estado a realização de todas as nossas esperanças. Esforçamo-nos para criar
detalhadas leis, como se elas garantissem os direitos da cidadania. Na verdade,
é o exercício cotidiano da cidadania que garante a existência real das leis e
cria condições para que elas não fiquem apenas no papel. Para isso é necessário
que toda a sociedade assuma responsabilidades e se acostume a compartilhar com
círculos cada vez maiores.
Daí a outra
indagação que fizemos no início. Será que os próprios grupos organizados do
campo popular não estão burocratizando um pouco a noção de organização e
participação? É interessante ver que mesmo a esquerda se refere aos excluídos,
aos que estão fora do círculo da cidadania, como uma massa
"desorganizada". Ninguém parece enxergar o mundo da cultura. É como
se não existisse vida inteligente fora da política e de entidades formalizadas.
Mas o povo se organiza em clubes, igrejas, centros espíritas, grupos de teatro,
"galeras", torcidas, turmas, uma infinidade de formas que exigem
atenção e, se não reivindicam, pelo menos aceitam de bom coração ser incluídos
na parceria com o Estado e na "assembléia dos cidadãos". Foi isso que
o Betinho vislumbrou ao propor a formação dos Comitês pela Cidadania.
Por último, é
preciso ter confiança nas vantagens da liberdade. O rompimento do formalismo da
nossa democracia, a ampliação do hoje estreito círculo da cidadania podem
liberar uma energia criativa que o País contém e ninguém pode avaliar. Hoje
temos no Brasil uma espécie de "assembléia dos cidadãos" semelhante à
da antiga Grécia, de que não participavam mulheres e escravos. É nosso papel
abrir o círculo. Para isso sentimentos e determinações pessoais são
importantes, mas não suficientes. Faz-se necessário estratégia voltada para
isso; e ela começa no reconhecimento da identidade cidadã do não-organizado e
de suas milhares de maneiras de mostrar interesse pelo que é coletivo. E o
cerne dessa estratégia é aceitar a diversidade, é romper com as tradições e
metas organizativas a que nos acostumamos, para colocar nossos meios, técnicas
e capacidades a serviço da inclusão daqueles que, segundo nossa cartilha, não
são organizados. Não existem mais vanguardas, mas continuam existindo as
iniciativas.
* III Foro Social Mundial; Mesa: Poder político, sociedad
civil y democracia. Texto apresentado em seminário realizado em Belo Horizonte,
em outubro de 2001.
Cuestiones
de América Nº 13, Febrero - Marzo de 2003
Regresar a la Página
Principal de Cuestiones de América...