Cuestiones de América
Entrevista com Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde
Diplomatique
Alex
Lamikiz *
Ignacio
Ramonet é um dos
protagonistas do atual movimento antiglobalização. Da sede do Le Monde
Diplomatique (http://www.monde-diplomatique.fr/-
uma publicação sobre política internacional distribuído em 10 idiomas a 1
milhão de assinantes) impulsionou a criação do Fórum Social Mundial. Esta
organização, que se apresentou na cidade de Porto Alegre, Brasil, em janeiro de
2001, tem como objetivo agrupar os movimentos que se opõem ao “neoliberalismo,
ao domínio do mundo pelo capital e a qualquer forma de capitalismo”. Para
Ramonet, o poder real reside hoje no “poder da mídia e no financeiro” e afirma
que agora enfrentamos a um “big brother”, um poder que exerce um delicioso
despotismo graças à publicidade.
Pergunta:
Quem detém atualmente
o poder real?
IR:
O poder financeiro e o
poder da mídia que a cada dia estão colocando de lado o poder político. O poder
da mídia difunde a informação, a comunicação e a cultura que se convertem no
aparato ideológico que difunde as mensagens que chegam ao grande público.
As
eleições italianas de 13 de maio são chaves nesse sentido. Silvio Berlusconi, o
homem que tem o poder da mídia (domina o maior conglomerado privado de meios de
comunicação) e o financeiro (é o mais rico do país) aspira conseguir o poder
político da Itália.
Pergunta:
Estamos enfrentando um
“inimigo de rosto sorridente” como vaticinava Aldoux Huxley nos anos 30?
IR:
Estávamos acostumados
a enfrentar um inimigo escabroso, porém agora teremos que enfrentar o “big
brother”, um poder que exerce um delicioso despotismo graças à publicidade. A
publicidade apresenta-nos um mundo futuro idílico e paradisíaco onde as pessoas
vivem felizes e eufóricas. Aqueles que dão uma mensagem diferente são tomados
por agourentos.
Pergunta:
Existe alternativa ao
projeto globalizante das multinacionais?
IR:
Naturalmente que sim e
esta alternativa apresentou-se em Porto Alegre no último mês de janeiro, na
reunião do Fórum Social Mundial. Le Monde Diplomatique fomos, como dizem os
latino americanos, os “idealizadores” desta reunião. Nesse encontro
apresentaram-se propostas concretas para superar o atual estado de coisas e avançar
até uma sociedade que se concentre no ser humano.
Pergunta:
Recentemente as
multinacionais farmacêuticas retiraram suas ações contra a lei do governo da
África do Sul que autorizava a venda de medicamentos genéricos. Seria essa a
primeira grande vitória do movimento antiglobalização?
IR:
A decisão das
indústrias farmacêuticas de abandonar essas ações é de sentido comum. Era
escandaloso que negassem à população desse país o direito à vida baseando-se em
um absurdo direito de patentes. Essa atitude estava colocando-as contra a
opinião pública mundial, porém não foi a grande vitória. Já conseguiu-se hoje
em dia abolir o AMI (Acordo Multilateral de Investimentos) e em Seattle
conseguiu-se acabar com o projeto de tentar converter a cultura (o cinema, os
livros, os discos) em mais uma mercadoria.
Pergunta:
A Internet não goza de
suas simpatias. Por que?
IR:
Isso não é correto. Le
Monde Diplomatique foi o primeiro jornal da França a entrar na Internet em 1994.
Em minha opinião a Internet é uma poderosa ferramenta para ter acesso ao
conhecimento, ao saber e para que as pessoas troquem opiniões pelos chats. O
que ocorre é que nós como jornalistas temos apontado alguns problemas que a
Internet tem. Como disse Paul Virilio, “os trens inventaram o acidente de
trem”. Estamos a favor da Internet, porém não participamos da idéia de que a
grande rede vá solucionar tudo. Essa postura sempre pareceu-nos muito ingênua.
Pergunta:
Qual sua opinião sobre
o equívoco da bolha financeira criada envolvendo os negócios relacionados com
as novas tecnologias?
IR:
No filme de Marco
Ferreri “Break-up” (1966) o protagonista, uma pessoa que se aborrece nas noites
quando chega em casa, dedica-se a encher globos. Gosta de enche-los até o
máximo, até o ponto em que se se introduz um pouco mais de ar, explodiriam.
Isto é o que fazem os especuladores na bolsa de valores. Investem na bolha até
que calculam que não vai mais agüentar e então, retiram-se. America On Line
(AOL) multiplicou seu valor na bolsa por 800 desde sua estréia em 1992. Se o
seu valor se multiplica por 800, por que não por 900 ou por 1000. Onde está o
limite? É todo um jogo sem sentido.
Pergunta:
Segundo o atual valor
na bolsa da AOL Time Warner, não lhe parece descabida a idéia de que a AOL
absorvesse a Time Warner? Não deveria ter sido ao contrário?
IR:
Estou de acordo. É
descabido que uma empresa compre outra com maior tamanho, utilidade e
empregados. Toda a operação baseava-se na valorização que os mercados nas
bolsas de valores davam à AOL, um parâmetro que agora após a queda da Nasdaq
mostrou-se totalmente absurdo.
* Nova-e.
III Foro Social Mundial; Mesa: Medios,
cultura y contrahegemonía. Alex Lamikiz é editor de Bitniks, uma revista digital sobre internet
Cuestiones
de América Nº 13, Febrero - Marzo de 2003
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