Cuestiones
de América
Lições de Porto Alegre
O FSM ganhou mais eficiência e avançar em seu trabalho de
transformação social
Francisco Whitaker *
No programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo,
gravado após o Fórum Social Mundial de 2002, perguntaram a Boaventura de Souza
Santos se o Partido dos Trabalhadores teria instrumentalizado o Fórum. O
sociólogo português, que tinha sido figura de relevo nesse evento, respondeu
dizendo que o PT é muito pequeno para isso. Tarso Genro, prefeito de Porto
Alegre, em entrevista dada na mesma ocasião à Folha, afirmou que todos os
partidos de esquerda do mundo, unidos, não conseguiriam convocar e realizar
algo como o Fórum Social Mundial.
Ainda que o
consideremos somente em termos de números, o Fórum foi um indiscutível sucesso.
As afirmações de Boaventura e Tarso partem dessa constatação, mas também
apontam para as razões desse sucesso.
Do primeiro para o
segundo os números saltaram. Quanto aos participantes, por exemplo, dos 20.000
de 2001 passou-se a 50.000 em 2002, entre os quais 35.000 “ouvintes”, de Porto
Alegre e de muitas partes do Brasil e países vizinhos, que para lá acorreram -
enfrentando às vezes longas viagens de ônibus - para ver e ouvir de perto
pessoas que admiram e viver o clima energizante desse grande encontro mundial.
Mas esse sucesso é
mais significativo se considerarmos o aumento do número de delegados, isto é,
pessoas inscritas no Fórum como representantes de entidades e movimentos da
sociedade civil: dos 4.000 de 2001 passou-se a 15.000 em 2002, representando
4.909 organizações de 131 países. Na verdade, o que de fato atraiu tantos
delegados foram as novidades de que o Fórum era portador: seu caráter plural e
não diretivo, que unifica respeitando a diversidade; sua abertura a todos que
quisessem dele participar - excetuando-se representantes de governos, partidos
enquanto tais e organizações armadas; e o fato de ser uma iniciativa da
sociedade civil para a sociedade civil, que criou um novo espaço de encontro -
o primeiro e talvez o único desse tipo no nível mundial - sem o controle de
governos, movimentos, partidos e outras instituições nacionais ou
internacionais que disputam poder político.
De fato, para esses
delegados o Fórum era realmente o que seus organizadores pretendiam que fosse:
um espaço horizontal em que podiam, livremente, dar visibilidade a suas
propostas e lutas - sem que nenhuma fosse considerada mais importante que a
outra e sem que ninguém pudesse impor suas idéias ou seu ritmo aos demais -,
intercambiar experiências, aprender e realimentar-se pelo conhecimento de
outras lutas, esperanças e propostas, aprofundar suas análises sobre as
questões que se levantam em seus campos de ação, articular-se nacionalmente e
sobretudo planetariamente. Ou seja, ganhar mais eficiência e avançar em seu
trabalho de transformação social.
Sem que isso
signifique descompromisso ou fuga de responsabilidades, seguramente não haveria
tanta disposição em participar desse evento se fosse para nele receber
diretivas e palavras de ordem, ser “patrulhado” em suas opções, ter que
engajar-se disciplinadamente em ações e mobilizações, aprovar declarações,
moções, tomadas coletivas de posição. Por isso mesmo os organizadores do Fórum
inscreveram em sua Carta de Princípios que ele não se pronuncia enquanto Fórum,
ninguém pode falar em seu nome, em nenhum de seus encontros se gastará tempo
para discutir e aprovar “documentos finais”.
Essa Carta
estabelece, explicitamente, que o Fórum Social Mundial de Porto Alegre não tem
caráter deliberativo. Isto é também o que acontece com o Fórum Econômico
Mundial, de Davos, ao qual o Fórum de Porto Alegre se propõe como alternativa
(é para realçar esse caráter que se realiza exatamente nos mesmos dias). Esses
dias são, para seus participantes, somente um momento mais forte e intenso de
aprofundamento de suas opções e articulações, no nível mundial, numa ação que
já existia antes deles e continuará depois deles.
É evidente que por
detrás dessa semelhança existe uma enorme diferença: os participantes de Davos
visam manter e aumentar a dominação do capital - do qual eles são os
controladores - sobre os seres humanos em todo o mundo, bem como a expansão de
seus negócios privados. Os de Porto Alegre - alimentando-se dos crescentes
protestos que surgem em toda parte contra uma globalização ditada pelos interesses
desse capital, querem avançar em propostas para a construção de um outro mundo,
centrado no ser humano e respeitoso da natureza, que eles consideram não
somente possível como necessário e urgente, e que, na verdade, já estão
construindo em sua ação prática.
Essa diferença de
objetivos e conteúdos determina também uma diferença de métodos: a principal
atividade desenvolvida em Davos é a de conferências, palestras e debates sobre
temas previamente definidos, para as quais seus organizadores convidam os
grandes expoentes intelectuais do “pensamento único” neo-liberal, os dirigentes
políticos das nações mais poderosas e os donos ou executivos das grandes
multinacionais. No Fórum de Porto Alegre há também um grande espaço aberto para
conferências, palestras e debates, assim como para testemunhos de pessoas com
experiências ou reflexões marcantes. Para isso, como em Davos, são convidadas
pessoas que vêm refletindo ou agindo em torno dos temas escolhidos - sendo que
no Fórum de Porto Alegre de 2002 as conferências foram confiadas não mais a
pessoas isoladas mas a grandes redes mundiais. Mas a atividade mais rica do
Fórum Social Mundial é a que se dá em torno das oficinas e seminários propostos
livremente pelos seus próprios participantes e por eles organizados: 400 em
2001 e 750 em 2002. Na verdade é o burburinho alegre que se forma em torno
dessas oficinas e seminários que cria o ambiente entusiasmado em que o Fórum
Social Mundial se desenvolve, com cores e barulhos variados, protestos
bem-humorados e divulgação de ações e propostas, assim como performances e
acontecimentos inesperados, nas salas, corredores e jardins do espaço em que se
realiza - totalmente ao contrário do que acontece no cinza bem comportado de
Davos.
Estas opções
organizativas do Fórum Social Mundial evidentemente não se concretizam sem
incompreensões, tensões, desvios, e mesmo tentativas de recuperação do Fórum
como um todo. Sua magnitude acende apetites, e seu caráter não piramidal
incomoda a quem tem pressa de ver as coisas mudarem e foi formado dentro dos
paradigmas tradicionais da ação política.
Grande parte dos
jornalistas, por exemplo - e isto se reflete na cobertura dada ao Fórum -
acostumados a entrevistar líderes e gurús, ou realçar lutas pelo poder, não
conseguem entender porque não há um “documento final”, ou “propostas
concretas”. Não pedem o mesmo a Davos, mas querem que a alternativa a Davos as
apresente. Têm dificuldade em compreender que o Fórum Social Mundial não é uma
cúpula, mas uma das bases de um movimento social que para se desenvolver não
pode ter cúpulas nem donos. “Sínteses finais” de cinco dias de trabalho, com
15.000 ou 50.000 pessoas, além de serem necessariamente empobrecedoras, só
poderiam ser por elas aprovadas através de algum tipo de manipulação. E todos
saem seguramente mais felizes do que se tivessem tido que lutar para incluir ao
menos uma linha de suas propostas no documento final...
Na verdade surgem
no Fórum centenas de propostas concretas, inclusive de mobilizações
específicas, como neste ano contra a ALCA. Ou novas reflexões, como a que neste
ano emergiu, sobre a mudança interior dos que lutam pela mudança do mundo. Tratado
em muitas oficinas e seminários, esse tema foi objeto de uma conferência que
atraiu mais de 2.000 pessoas. Mas nenhuma dessas propostas e reflexões é do
Fórum enquanto tal. São de responsabilidade de quem as assumiu. E a elas se
associarão todos aqueles que optarem por isso, como sujeitos de suas decisões.
Naturalmente também
surgem tensões até entre os que organizam o Fórum, ou deles se aproximam para
ajudar. Há por exemplo os que gostariam de ver o Conselho Consultivo
Internacional do Fórum se transformar em um novo comando mundial da luta contra
o neo-liberalismo, controlando e direcionando esse processo. As perspectivas de
continuidade assumidas pelos organizadores parecem apontar para outro sentido,
com a consolidação do método orientado pela Carta de Princípios do Fórum. Firma-se
o conceito de que o Fórum é um processo, e não um evento e nem uma nova
organização internacional dirigida pelos líderes de um “pensamento único”
substitutivo, o que lhe seria fatal. É preciso também cuidar, por exemplo, para
que as conferências não terminem com “sínteses orientadoras”, votadas pelo
respectivo “plenário”, ou para que não prevaleçam sobre as oficinas. Ao mesmo
tempo, as decisões tomadas até agora pelos organizadores apontam para que o
poder convocatório do Fórum produza em mais países do mundo a mesma mobilização
que ocorre no Brasil. O Fórum de 2003 começará com provavelmente uma dezena de
Fóruns regionais ou temáticos nas diferentes áreas geopolíticas do mundo, de
setembro a dezembro de 2002, até chegar a um novo Fórum centralizado de novo em
Porto Alegre. O mesmo processo recomeçaria em setembro de 2003, podendo
desembocar, em 2004, em um encontro mundial na Índia.
Na verdade, o
grande desafio para os organizadores do Fórum Social Mundial não é o de definir
novos e melhores conteúdos que levem a propostas cada vez mais concretas, mas
sim o de assegurar a continuidade da forma dada ao Fórum - um caso em que o
meio é determinante para os fins a alcançar. Os conteúdos surgirão naturalmente
do processo assim lançado, dentro da própria luta da humanidade por um outro
mundo, e serão necessariamente canalizados para as várias edições do Fórum, com
questões comuns a todas e com as especificidades de cada região do mundo em que
se realizar. O que importa é garantir que esse novo paradigma de ação política
transformadora, criado pelo Fórum Social Mundial, não seja engolido para dentro
de “odres velhos”.
* III Foro Social Mundial; Mesa: Poder político,
sociedad civil y democracia.
Cuestiones
de América Nº 13, Febrero - Marzo de 2003
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